sábado, 8 de outubro de 2011

Jesus Cristo, mestre de uma educação dialógica

- "Dá-me de beber.
- Como sendo tu judeu me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?
- Se tu conheceras o dom de Deus e quem é o que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias e ele te daria água viva.
- Senhor,... onde tens a água viva?...
- Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna".

Diálogo entre Jesus e a mulher
samaritana – Jo 4:7,9,10,11,14.



Imagino que você, caro leitor, conheça bem esta passagem das Escrituras Sagradas. Aprecio muito este trecho do livro de João, pois ilustra um princípio fundamental da pedagogia de Jesus: o diálogo.

Sempre que leio algo relevante sobre Educação, tenho procurado confrontar com as ações pedagógicas do nosso Mestre por excelência. Neste ato de curiosidade pessoal, minha admiração por Jesus só cresce, especialmente quando vejo educadores contemporâneos reproduzindo teorias que Ele propôs e colocou em prática, há milhares de anos atrás. Está surpreso? Não fique! Que tal deixarmos um pouco de lado o clássico embate ciência x fé para refletirmos um pouco sobre a práxis do Educador Jesus Cristo?

Espero que tenha aceitado o meu convite. Vamos prosseguir?

O cientista secular a que desejo me reportar neste artigo é muito conhecido dos pedagogos e educadores em geral. Seu nome: Paulo Freire. Foi ele quem propôs o termo práxis, citado anteriormente. Qual o significado dessa palavra e o que ela tem de relevante para as reflexões deste artigo? Segundo Paulo Freire, a práxis significa ação-reflexão no momento do ato pedagógico. Esta "ação-reflexão" forma a base de uma educação com vistas à transformação, à libertação dos "oprimidos". O termo oprimido, para Freire, não tem o mesmo significado da palavra oprimido utilizada no vocabulário cristão, mas se aproxima.

Freire é conhecido no âmbito educacional como alguém que propôs uma pedagogia crítica, reflexiva, progressista, que preparava as classes populares (excluídas), a lutarem por seus direitos. Sua teoria é ampla, não é meu objetivo aprofundá-la ou esgotá-la aqui, mas extrair elementos que traduzem muita coisa ensinada e vivida por Jesus em seu ministério terreno.

O elemento da teoria freiriana que desejo compartilhar nestas linhas com você, caro leitor, é o diálogo.

Paulo Freire compreende o diálogo como um fenômeno indispensável à existência humana. "É o caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens", afirma. Segundo Freire, o diálogo não pode ser reduzido a um ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tão pouco tornar-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos interlocutores. Para ele, o diálogo só acontece entre sujeitos comprometidos com a pronúncia do mundo e com a busca da verdade.

A concepção freiriana acerca do diálogo estabelece alguns pressupostos básicos. São eles: o amor, a humildade, a fé nos homens, a esperança e um pensar crítico.
Utilizarei esses pressupostos no "diálogo" que pretendo estabelecer com você nestas páginas da Revista Eclesiástica. Desejo mostrar-lhe como a pedagogia de Jesus é atual e relevante para nossas atividades educacionais! Ao final deste artigo, você perceberá o quanto nosso Mestre dialogou com seus educandos, e, através do diálogo, vem transformando a vida de pessoas em todos os tempos.


O amor
"Não há diálogo se não há um profundo amor ao mundo e aos homens" (Paulo Freire).
"Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos". Jo 15.13. (Jesus Cristo)

O educador verdadeiramente comprometido com a formação de seus educandos, conhece a importância de desenvolver relações afetivas e de valorização mútua. O amor constrói um ambiente favorável ao aprendizado. Jesus não só apregoou o amor, mas o praticou em diferentes momentos do seu ministério educacional. Importou-se com o estado aparentemente desprezível de Bartimeu (Lc 18.40-42), foi sensível ao sofrimento de Marta (Jo 11.20-28;39,40) e valorizou o esforço de Zaqueu para vê-lo (Lc 19.1-10). Com cada uma dessas pessoas Jesus estabeleceu diálogos profundos e de grande repercussão em suas vidas.


A humildade
"A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante" (Paulo Freire).
"Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo" Fp 2.3. (Jesus Cristo)

A humildade, na perspectiva de uma educação dialógica, representa a aceitação do outro, a capacidade de ouvi-lo e um profundo respeito por suas idéias e pensamentos. Dialogar implica em compreensão mútua e no desenvolvimento de saberes construídos coletivamente. Jesus praticou a humildade em sua pedagogia, de diferentes formas: sabendo ouvir (Nicodemos – Jo 3.2); formando uma equipe para executar seu ministério (Mt 10.1-4); maravilhando-se com os seres humanos (Centurião de Cafarnaum – Mt 8.10).


Esperança
"A esperança está na própria essência da imperfeição dos homens, levando-os a uma eterna busca”. (Paulo Freire)
"Ora, o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz..." (Rm 15.13) (Apóstolo Paulo, sobre a esperança em Jesus Cristo)

A fé cristã é fundamentada na esperança. Esperamos a concretização de um reino ao qual pertencemos desde o momento em que aceitamos a Cristo como nosso Senhor e Salvador. Esperamos a volta de Jesus; esperamos nossa redenção eterna. Numa educação cristã dialógica, alunos e professores devem estar cientes de sua imperfeição, e motivados para um crescimento constante. Como diz a Bíblia, "a vereda dos justos é como a luz da aurora..." (Pv 4.18). A cada momento devemos procurar brilhar mais, enquanto aguardamos o dia de sermos homens e mulheres "perfeitos, à medida completa de Cristo" (Ef 4.13).


Pensar crítico
"Este é um pensar que percebe a realidade como processo... e não como algo estático". (Paulo Freire)
"Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede meninos na malícia, e adultos no entendimento". (I Co 14.20) (Apóstolo Paulo)

O pensar crítico é um convite à reflexão constante sobre a realidade que nos cerca. Numa visão dialógica de educação, o professor não entrega respostas prontas a seus alunos. Levanta questionamentos, problematiza, leva-os a refletirem sobre si mesmos e sobre a realidade na qual estão inseridos. Valoriza sua curiosidade crítica e está sempre disposto a resolver conflitos. Jesus constantemente problematizava seu ensino (Mt 16.13). Lançou uma questão desafiadora aos acusadores da mulher a adúltera (Jo 8.7); oportunizou a argumentação e a curiosidade de Pedro (Mt 14.28), Tomé (Jo 20.24-27) e da cúpula judaica (Lc 20.1-8); e ainda resolveu conflitos, como no caso de Marta e Maria (Lc 10.38-42).

Concluo minhas palavras reafirmando meu amor e admiração pelo Mestre Jesus. Enquanto cientistas seculares gastam tempo criticando a fé cristã ou tentando explicá-la utilizando métodos empíricos, estão perdendo uma grande oportunidade de aprenderem com a pedagogia de Jesus. Basta observar a coerência, e total adequação, da teoria de um expoente da Educação, como Paulo Freire, aos ensinos praticados e vividos pelo nosso Senhor Jesus Cristo.

Por outro lado, cristãos que mergulham na ciência sem realizar reflexões como esta, também estão perdendo a chance de reafirmarem sua fé n’Aquele que tudo sabe. Viver a Bíblia não é viver à margem do conhecimento, numa total alienação. Ao contrário, quanto mais estudo, mais reafirmo a fé que habita o meu coração, pois compreendo a realidade, contemporaneidade, pertinência e aplicabilidade das Escrituras Sagradas a qualquer área da minha vida.

Dedico este artigo a todos os educadores de nossa igreja: nossos amados pastores, líderes de ministério e professores da Escola Dominical. Que encontrem no Mestre Amado uma fonte de inspiração para exercerem uma educação cristã dialógica.

Priscila Barros David
Professora da Classe de Jovens - EBD AD Cidade
Professora e Pesquisadora em Educação pela UFC


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1 comentários:

Wagner Ribeiro disse...

A DEDICAÇÃO DESSE ARTIGO AOS EDUCADORES DA SUA IGREJA, ULTRAPASSA ESSE ÂMBITO E CHEGA NO CORAÇÃO DE TODOS QUE TEM DEUS NO CORAÇÃO E TEM PROCURADO TORNÁ-LO MAIS VIVO A CADA PRÁTICA DO BEM...A CADA AMPLIAÇÃO DO OLHAR NA ESPERANÇA DE UM MUNDO MELHOR, COMEÇANDO PELA MELHORIA DE SI MESMO. PARABÉNS PELO ESTUDO. CLAREOU EM MIM, PROFESSOR DE ARTES E ESCULTOR ( site wagnerribeiro.art.br) A LUZ DESSE MESTRE JESUS, O GRANDE EDUCADOR (SALVADOR) DA HUMANIDADE.

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